quarta-feira, 4 de julho de 2018

Porque eu decidi parir

 


Amanda Greavette - The Delivery (do lindo projeto "The Birth Project")
 
Nas vésperas de entrar no 8º mês de gestação, muitos ainda me perguntam como quero ter meu parto. Ao responder “normal”, não são poucos os que me dizem que sou corajosa. Confesso que não entendo muito bem onde minha coragem se encaixa nisso, porque acredito ser necessária ainda mais coragem para enfrentar uma cirurgia de grande porte. De qualquer forma, refletindo nessas 30 semanas como gestante, tentei responder para mim mesma: por que eu quero parir?

Essa pergunta nunca foi verdadeiramente concebida, pois sua resposta nunca foi verdadeiramente questionada. Desde antes de estar grávida eu havia decidido parir da forma mais natural possível, caso um dia ficasse grávida. Mas da onde veio essa certeza? Bom, algumas leituras e estudos de violência obstétrica certamente me ajudaram na escolha. Mas nunca foi só isso. Até porque comecei a estudar sobre o assunto por algum pretexto anterior.

Refletindo livremente, longe dos dados, números e artigos que diferenciam os tipos de parto, o ato de parir sempre me fascinou. Criar um outro ser dentro de si e trazê-lo ao mundo é algo incrível e poderoso. E absolutamente natural, já que desde que o mundo é mundo, as mulheres parem. Se pensarmos bem, parir vai contra tudo o que essa sociedade de hoje tenta nos impor:

Em um mundo programado, parir é imprevisível. Não sabemos a hora exata que o bebê decidirá nascer, rompendo com as agendas, com os prazos do trabalho, com o calendário já antes planejado. Não há como calcular o tempo de duração do parto. É preciso se entregar.

Em um mundo que medicaliza a dor, parir é sofrer. E saber que no meio de todo o sofrimento também há prazer. Um rito de passagem natural para aquele que vem e para os que trazem. Todos os hormônios e emoções funcionando harmonicamente para a chegada de um novo tempo.

Em um mundo machista, parir é poder. A mulher é protagonista e dona de seu próprio corpo. Ela dirá as posições, dirá o ritmo e dirá suas vontades. A gestação é uma oportunidade de empoderar-se de si, não só para o parto, mas para a vida em todos os seus desdobramentos.

Em um mundo de julgamentos, parir é sororidade. É confiar na mulher que já pariu. É contar com braços que lhe apoiem o corpo. É olhar nos olhos que lhe darão forças para continuar. É ouvir conselhos de forma aberta e dar conselhos sem imposição. É cuidado coletivo. 

Em um mundo asséptico, parir é fluído. Não há como esconder todo o sangue e água que escorrerá dentre as pernas. Parir é água e movimento. Um desvelamento absoluto do corpo que não suportará amarras. Voltamos ao estado original, renascendo junto daquele que parimos.

Em um mundo que despreza o oculto, parir é instintivo. É saber que nascemos sabendo nascer. Reconhecer que o bebê sabe o que fazer, assim como nós sabemos parir. É confiar no corpo e se entregar ao instinto. Pouco racional, nada consciente. Uma verdadeira entrega.

Não é preciso parir para desconstruir as amarras que nos são impostas diariamente. Mas optar por parir é um ato de libertação, mesmo que momentâneo. E muitas vezes esses momentos intensos nos reconstroem para o novo e ressignificam a vida. É a possibilidade de ter um outro olhar para o mundo.

Infelizmente, não são todas as mulheres que conseguem parir da forma mais humanizada possível. Em um mundo de violência, parir é privilégio. Não são todas que conseguem achar meios de ter sua vontade e seu corpo respeitados, independentemente do tipo de parto, já que o parto não precisa ser natural para ser humanizado.

O parto normal muitas vezes não é uma opção viável por reais intercorrências médicas. Mas basta ler um pouco sobre violência obstétrica para saber que as altíssimas taxas de cesárea não se devem por problemas no parto, nos bebês ou nas mulheres, mas por conveniência médica e pura violência. É algo sistêmico que não será resolvido individualmente. Daí a importância das políticas públicas para humanização do parto, seja na construção de mais casas de parto, reconhecimento e valorização das profissões de doulas e parteiras, melhoria e ampliação no acompanhamento público das gestantes, enfim, uma longa lista.

Além disso, por ser um processo de empoderamento e escolha, as mulheres que optem conscientemente pela cesárea também devem ser respeitadas igualmente. O que merece questionamento são as formas sutis (ou não tão sutis assim) de imposição de procedimentos desnecessários. Daí a importância de estarmos empoderadas nesse momento de tanta vulnerabilidade que é a gestação e o parto. Nesse ponto, a condição da mulher (física, mental, emocional), a escolha dos profissionais, a rede de apoio, as leituras realizadas e um punhado de outros fatores contam muito. Esbarramos novamente nos privilégios.

De qualquer forma, tudo vem caminhando para que eu consiga parir da forma mais respeitosa e humana possível. Seja como for, foram tantas as reflexões nesse processo que já me sinto transformada. Obrigada, meu filho, por me proporcionar essa renovação. Estamos te esperando, na hora que você quiser chegar.

sexta-feira, 15 de junho de 2018

Expectativas x realidade na gestação (e na vida): despreendimento para o possível.

 


Mãe Solo (@maesolo_oficial)

 

A expectativa era escrever muitos textos, os quais eu leria no futuro e ficaria tocada pensando “que momento mais lindo e fértil da minha vida”. Escreveria textos aqui, de cunho político-reflexivo, falando sobre direitos das mulheres, feminismo, saúde pública, violência obstétrica, e também textos mais intimistas na minha mandala lunar 2018, com desenhos, impressões e até algumas colagens, quem sabe.

Também tiraria fotos semanais que mostrariam a linda evolução da minha barriga. Minha pele estaria viçosa, meu cabelo brilhante. Teria uma doula de confiança que viraria minha BFF. Conseguiria organizar minha agenda pessoal para ver todos os meus amigos gradualmente, marcando saídas para aproveitar a vida adulta sem filhos. Além disso, leria todos os 85.983 livros de maternidade, parto e empoderamento feminino para me sentir segura das minhas escolhas e nas horas vagas bordaria um lindo móbile para o meu nenê.

A realidade é que estou com 28 semanas, começando a ficar incomodada real com a listinha de tarefas que não para de crescer e apenas tentando lidar com o fato de às 22h eu já estar babando em cima de qualquer superfície que não se mova muito (incluindo meu marido). Passei quatro meses vomitando todos os dias, sem nenhuma energia de viver, e os dias seguem com muito sono e preguiça, uma imunidade bem vacilante que me atribuiu algumas licenças médicas e uma azia que faz me ter consciência de todo o percurso da comida desde sua ingestão.

De qualquer forma, apesar de querer ser um elefante para ter uns 13 meses extras de gestação e poder pelo menos organizar as roupinhas que ainda não tem lugar próprio e estão socadas no meio das minhas próprias roupas, estou encarando essa frustração total de expectativas como um ensaio para a maternidade e um grande aprendizado.

Todos os textinhos engraçados (ou não tão engraçados assim) que vem seguidos de #maternidadereal indicam que não será fácil, que vai piorar, que a vida que eu conheço vai basicamente acabar e eu vou ter que me reinventar mesmo. O bagulho vai ser louco. A dica que fica é: melhor eu não ter tantas expectativas assim em cima da minha listinha de tarefas ou, melhor ainda, melhor eu REPENSAR a minha listinha de tarefas.

Muitas vezes criamos necessidades, obrigações e expectativas totalmente sem sentido para nossas vidas por pressão social ou falta de questionamento. No caso da maternidade, um exemplo simples são as listas de enxoval do bebê. Vocês já viram as listas de enxoval que publicam por aí? De repente, recomendam estocar creme anti assadura sem nem saber se o bebê terá assaduras efetivamente. Ou comprar mamadeiras, caso o bebê não pegue o peito direito. Começamos a considerar a hipótese de comprar uma cômoda que não cabe em casa, carrinho que se teletransporta, babá eletrônica que faz seu filho ninar, fora os itens de higiene do tipo “shampoo e condicionador”, “colônia”, super necessários para um recém-nascido.

As necessidades e expectativas que criamos não precisam ser tão populares, podem ser também “alternativas” como as que eu mesmo tinha: ter um diário maternidade super completo, fazer tinturas de ervas e sabonetes naturais, estudar óleos essenciais bons para o parto, por exemplo. De qualquer forma, seja ensaio gestante, lembrancinhas de nascimento, ou estudos montessorianos, quando você se desprende dessas obrigações sociais, comerciais e também internas, as coisas ficam mais leves e passam a fazer mais sentido.

Esse processo de desprendimento tem sido de um aprendizado difícil de mensurar. Não se trata só da maternidade em si, mas do processo de olhar para dentro e tentar repensar verdadeiramente suas necessidades e limitações, baixar as expectativas e viver de maneira mais real e intuitiva. Não precisa estar gestando para tanto. Os hormônios, o cansaço e tantas mudanças podem ajudar no processo, mas essa busca por uma vida mais íntegra pode e deveria ser diária.

Também não estou falando que precisa ser radical e largar tudo ao acaso. Mas tudo bem se não der certo fazer o álbum da evolução da barriga semanal. Ok, também, se tiver que trocar o nenê na cama. A única coisa que o bebê vai querer e realmente precisar é aconchego, leite, colo e umas fraldas limpas. Não dá pra planejar tudo. Não dá pra fazer todo o planejado também... E está tudo bem, não é mesmo? Na vida, com ou sem bebê, está tudo bem. Pelo menos, esse tem sido o meu mantra.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Terapia 3

Vladimir Kush - At the End of the Earth

Terceira Sessão: Abismos

As marcas daquela felicidade, já passada, me voltavam como se estivessem negativadas em minha mente. É verdade que procurei desnecessariamente por elas. Em meio a nossa felicidade, fui buscar tristeza, e na tristeza fiquei. Eram as forças que me puxavam para aquilo que eu chamava de realidade, como se a felicidade fosse irreal e a verdade, necessariamente, triste.

Às vezes me sinto num devaneio. Acordo, vou pra rua, trabalho, durmo, e sinto como se nunca tivesse acordado. Sinto que vivo uma vida que não vivi. E certas horas, me belisco para saber se aquilo tudo é real. Nesses lapsos me questiono o porquê de estar ali, afinal. O porquê de ter feito tal escolha, o porquê de estar vivendo dessa forma e então, volto à irrealidade. Tudo fica enevoado e sigo no sonho, sonhando como as coisas poderiam ser bonitas e coloridas. Poderiam ser.

Mas há momentos em que me vejo viva, em êxtase, e num respiro de esperança as possibilidades se abrem como portas coloridas na minha frente, onde posso escolher e ser, de fato, tudo aquilo que eu poderia ser. Porém, num estalo, desço a escadaria do meu medo, para me esconder na tristeza, como se ela fosse a verdadeira e única forma de existir. Me afundo na certeza de que nada pode ser tão bom assim, como se não merecesse a felicidade, como se ela não coubesse em mim.

E sinto como se a felicidade de fato não existisse. Parecem ser pílulas fabricadas num mundo de desalento e dissabores para que todos tenham a esperança de um dia a alcançarem. Continuamos vivendo. E vejo nos olhos daqueles que pedem, envergonhados, um prato de comida, ou um casaco para o frio, um mundo de tristeza, um abismo sem fim.

Quanto mais penso, mais me afundo, num redemoinho de olhares e fotos e datas e taças e pratos e convites e canções, como se não pertencesse a nenhum lugar no mundo. Cavoco meu próprio poço, vasculhando as memórias e o passado que sei que me devastará. Me sinto extremamente só submersa nos densos sentimentos que me arrastaram para o meio do oceano, clamando por um socorro vazio, num mundo surdo e mudo. É como se eu fosse exilada de mim mesma.

Aos poucos, porém, sinto chegar a vida. Todo aquele mar vai se evaporando e deixa o que pesava mais leve... Luto contra as últimas ondas que me tentam levar, mas mesmo cansada, resisto. Arfando, me apoio nos sorrisos e tento me reconstruir, ainda mais forte. Sei que as muralhas nunca serão suficientes para a tristeza que há no mundo, mas me socorro da crença de que existe felicidade. 

Tento me proteger dessa louca armadilha que criei, de que a felicidade não cabe em mim, buscando resistir aos meus próprios abismos.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Terapia 2 (com cortes)



Segunda Sessão: Meu encontro com Lygia Clark

O incentivo para ver aquela exposição foi dele. Ele havia ido na outra semana com uma amiga que, se estivesse tudo bem, por certo teria ciúmes. Fui sozinha, antes de alguma reunião de domingo, que estava sem vontade nenhuma de ir. Cheguei tímida, tentei pegar um folder, havia acabado. Adoro guardar os papéis das exposições que vou. Guardo todos, como se me preenchessem, como se validassem minha ida. Alguns são tão bonitos e fico só pensando no que poderiam se transformar. Tenho algumas manias de guardar. Guardo algumas etiquetas bonitas das roupas que compro. Fico pensando que o capitalismo produz tantas coisas, tão bonitas, tão vazias, tão... descartáveis. Vou montar um quadro com as etiquetas, brilhantes, coloridas, desenhadas. Com os lápis colecionados também. Tenho uma caixa cheia, separados pelas borrachinhas, apontados cuidadosamente um por um. Ficarão no escritório, organizados por ordem das cores, dentro de uma caixinha com vidro, fundo branco. Eu sempre achei que tivesse boas ideias de decoração, herança da minha mãe, está no sangue da família.

Cheguei na exposição e topei com alguns quadros que não gostei muito de cara. Experimentos. Quando são essencialmente experimentais de nada valem, mas a pessoa morre, fica famosa, e todos os seus rascunhos viram obra de arte, elevando a obra ao sobrenatural. O artista vira um ser divino que não erra, que não rabisca. Logo na entrada havia a linha do tempo, mais obras experimentais. Fingi ler a parte em inglês, pra me passar de turista. Na realidade, me sentia uma turista, uma estrangeira em mim mesma. Os turistas têm carta branca para andarem sozinhos. Estão livres, soltos, flanando por uma cidade desconhecida, conhecendo pessoas. Se descolam da paisagem rotineira, não fazem parte dali. Olhei o experimento (um chão de imã, com sapatos de imã, que te levariam randomicamente para passear) e pensei que não fosse para mim. Estava tímida e não tive coragem de tirar meus sapatos para participar do projeto. Nem tinha meias... Subi para os outros andares e entrei numa sala em que passava um filme. Era em português, mas havia legenda em inglês. Poderia seguir com meu disfarce.

Foi ali que a mágica começou. Me sensibilizei com o preto e branco do filme, com a ideia da sensibilização. Mas tudo era muito hippie e senti que, novamente, não me encaixava ali. Não tenho essa perfeição natural, de acordar com o cabelo bom, com a perna lisa. Ou não aceito o meu cabelo ruim, meus pelos. Tenho tantos incômodos com meu próprio corpo... Sei que me falta libertação. Me falta aceitação. Perceber o que tenho em mim e gostar... De-fora-pra-dentro-de-dentro-pra-fora. Tenho a consciência que sou eu quem pinto meu espelho, mas tendo a ser bem realista em alguns aspectos. (...) Por sinal, não consigo me sentir a vontade com frequência. Na verdade, toda essa extroversão me soa um tanto falsa. Os vernizes que me foram construídos, os muros que levantei, são parte de mim também. Essa minha imagem exposta diariamente, o sorriso no rosto, também fazem parte de mim. Isso não me faz menos eu. Mas pesa. Sinto que se libertasse mais o meu peso, voaria mais alto. Mas ficaria tão... oca.

O verdadeiro insight aconteceu, porém, com as caixinhas de fósforo. Nunca vou esquecê-las. Estavam lá, as caixinhas, todas grudadas e pintadas de vermelho, outras de azul, outras de amarelo. Me senti a verdadeira artista, verti em lágrimas. Foi um momento de elevação única. Nem todos os elogios do mundo me fariam sentir como naquele instante. Eu, que havia tantas vezes pensado em caixinhas de fósforo grudadas, coloridas. Eu, que havia tantas vezes pensado naqueles mesmos experimentos. Tive um segundo de compreensão plena que a vida é feita de escolhas. Poderia ter escolhido a arte, um curso de artes plásticas, as experimentações com as caixinhas, as etiquetas, a caixa com lápis. Mas resolvi guardá-los na gaveta, todos organizados sistematicamente para, quando tiver um tempo de férias e casa própria, pensar em realizá-los. Ele sempre brincava comigo: “sua casa, para ter tudo o que você quer, vai precisar ter trinta cômodos”. São muitas minhas ideias. Mas ficam todas guardadas, travadas na garganta. Ou saem num tom leve de brincadeira, como se fosse um sonho etéreo, mentirinha qualquer.

Aquelas caixinhas de fósforo foram a confirmação da minha efêmera genialidade. Não só minha, mas do mundo! E não sou eu quem sempre acreditei na genialidade humana? Sempre defendi que todo o ser humano, todo indivíduo, tinha seu próprio dom, sua especificidade. Era daí que as paixões nasciam. De uma vírgula de diferença... Se conhecesse todos no mundo, por certo me apaixonaria pelo mundo. Mas as pessoas se escondem por trás daquilo que é comum e ficam estrangeiras de si mesmo, vestindo uma capa de normalidade grossa, feito neoprene, esquecendo suas vírgulas, suas covinhas escondidas, suas imperfeições. E quem culpar? Nesse momento chorei por minhas escolhas que foram feitas de forma tão inconsciente, mas será? Aquelas caixinhas de fósforos me acordaram daquela sensação etérea da vida. Me deram a certeza de que, se quisesse ser Ligia Clark, bastava um pouco de cola bastão e consciência. Mais do que consciência, oportunidade. Ou coragem. Quando se tem uma noção sistemática de mundo, fica difícil acreditar em escolhas reais. Sentimo-nos como fantoches que vivem para se integrar a essa grande engrenagem.

Mas isso soa tão repetitivo. Sempre a mesma busca de viver em plena consciência, de traçar seu próprio caminho. Soa, além de tudo, egoísta, pelego. Soa com aquela leveza que julgo falsa, do não preocupar-se com ninguém, do aproveitar a vida a qualquer custo. A vida não é tão simples assim... E tendo a acreditar – em lapsos de risos – que ela o é, obtendo, assim, meus próprios subterfúgios, minhas próprias justificativas para continuar agindo de uma forma moralmente (e minha moral, como já disse em outras sessões, é cristã) inaceitável. Mas, como dizia aquela música? Nem todo beijo é pecado, nem toda culpa é cristã. Talvez me falte forró, samba e verde. Talvez me falte mais consciência  mais coragem. Essa cidade toda concreta me cerca e sufoca. E sufoca a todos, em todos os lugares do mundo. Talvez me falte ignorância. E leveza.


sexta-feira, 10 de maio de 2013

Terapia 1 (com cortes)




Primeira Sessão: Despejo inicial

Explico, em primeiro lugar, que preciso de plateia. Não que isso transpareça abertamente, acho que consigo esconder bem esse traço de personalidade na minha relação com as pessoas. Mas preciso fantasiar um pensamento alheio sobre mim. Falem bem, falem mal, falem de mim, é o que dizem. E se dizem, imagino. Claro que finjo ignorar, num ar quase blasé, de emancipação absoluta dos me rodeiam. Mas não é verdade. Daí alguns fatos da minha vida, alguns poemas, alguns e-mails, os blogs – todos abandonados, que me fazem ter cena pra plateia que inventei. Mas toda essa minha coragem de me expor, de viver o perigo, mesmo que abstrato, se dá em saltos. Vem um impulso, alavanca, estou no alto e depois, bum! Lá no fundo, estatelada. Fico cor de rosa, sabe, não dá pra esconder.

Lembro-me de alguns outros momentos que formaram peças pro meu teatro. Assim, em lapsos de insanidade, ou de sanidade – não saberia bem dizer, dou esses estalos de vida que viram histórias. E conto, rindo-me, para que me chamem de louca, para que desacreditem, para que me admirem. Esse teatro todo, porém, cabe esclarecer, tem plateia seleta. Escolho as pessoas que quero encantar.

Esse texto, por exemplo, foi meticulosamente pensado no banho, já imaginado num e-mail encaminhado para você, até então desconhecido, o tal psicólogo da minha irmã. Você foi o selecionado para ler esse texto, montar alguma suposição sobre mim para que eu possa me deliciar com a expectativa da sua reação. Quem sou eu na sua cabeça? Claro, sempre vêm as ideias posteriores também... Talvez tudo isso dê num livro, mas outro problema que tenho é: minhas ideias não saem do papel. Muitas, na verdade, ficam apenas na cabeça, ou espalhadas por aí, porque eu compartilho tudo no ouvidos das pessoas. Algumas, inclusive, as realizam, colocando em prática o que pensei, e eu fico aqui, chupando o dedo. Devo ter lido isso em algum horóscopo, preciso me focar.

Pelo menos as que estão no papel foram escritas e segundo, ou terceiro, ponto importante sobre mim: adoro escrever. É quase um desafio para comigo mesmo. Que saudade estava de me despejar sobre o papel. São nesses momentos de agonia profunda que as palavras vêm e vão se formando, em ciranda, na minha cabeça. Primeiro medo: Para escrever terei de viver em eterna agonia? Não que eu não goste de paz, por sinal, é a sina das pessoas, não é? É a rotina, porém, que me mata... Antes ficar no sofá, deitada, olhando pra parede sem sair do lugar, num mormaço de vida, que queima, mas não queima, do que viver na rotina insana que nos impede de pensar. Eu não consigo mais pensar. Na verdade, eu só consigo pensar, no mundo, na revolução, nas estruturas. A poesia secou no meio desse deserto cinza de concreto, deserto de sentimentos. Vai ser assim pra sempre?

Não pensei que fosse ter tanto medo assim na vida. Nunca me contaram que era assim. Mas de repente acordei e me vi dentro de uma história que parecia não ser minha! Como havia parado naquele curso? Porque ainda usava aquelas roupas? Me senti subindo de um longo mergulho para buscar ar na superfície. Estou arfando até agora sem saber onde é a beira e não, eu não sei nadar. Que medo de mergulhar outra vez. Mais medo ainda de buscar ar mais pra frente, com dois filhos, um trabalho, um marido, uma casa. Pânico!

Tudo isso (o texto, a reflexão última, o banho) me faz pensar o quanto guardo em mim e como eu não me abro nunca. Parece que há tempo não me vasculho por dentro! Afinal, quem eu sou? Porque guardo tantos papéis nos meus armários, porque tenho livros que nunca li? Fui construindo um mundo fascinante, repleto de recortes coloridos, que foi deixado de lado pela minha vida. A vida não pode ser fascinante sempre? Não tenho espaço para exercer o meu eu.

Pode ser culpa da mídia, da internet, do Facebook. Fico horas vendo as vidas – nem sempre fascinantes – nos perfis alheios. Me furto ao mistério, à capa do meu filme preferido ou do que parece ser cult, à foto artística, ou tosca, você pode escolher. Só sei que faz tempo que não tenho tempo pra mim, não tenho tempo de escolher minha leitura, de fazer minhas colagens, de escrever! De escrever... Nem sei mais montar a ciranda, as palavras tropeçam todas, se amontoam, perdeu o glamour. Não que se trate de glamour, mas tinha um drama, sabe? Um tom ácido, honesto, que gostava tanto. E quando leio os textos antigos, meu Deus, parece que eu não mudei nada! Parece que o meu eu interior continuou lá, como um quartinho bagunçado, e a vida passou e quando eu abro a porta do quarto, as coisas ainda estão lá entulhadas, um pouco mais empoeiradas.

E nessa vida que passou, me sinto uma casa vazia. Uma sala de estar com a luz apagada. Dessas salas antigas, com poltrona listrada, lareira e abajur de mesa. O pêndulo do abajur ainda balança, foi recente essa escuridão, essa penumbra. Não estou dizendo que não tenho momentos de felicidades. Muito pelo contrário, meu sorriso é legítimo. Não estou dizendo que também não ame. Se não amasse, toda essa reviravolta não me seria tão dolorida e continuaria sentindo a fome que sempre senti. Hoje, meu estômago grita pelo vazio, e a fome tornou-se de vida, da vida que imaginei. Me pergunto o porquê desses lapsos de realidade (ou de irrealidade) que me desconstroem a vida construída, não imaginada. Isso é tão geminiano, tão pendular. Me disseram que meu arco vai mais longe...

Mas onde ele vai cair?


Imagem: Corpos presentes - Antony Gormley

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Náusea



Uma criança nasceu na rua.
Esta suja, mas vive.
Faminta, sorri.

Parem os carros, os caminhões,
desçam dos metrôs, das construções,
uma criança nasceu na rua!

Silenciem a cidade! Ouçam o seu choro!
A criança vive,
sorri, faminta.

Deem-lhe, comida, roupa, casa,
deem-lhe compaixão!
Essa criança nasceu!
Perfurou a barreira da indiferença e veio ao mundo nos saudar.
Parem todos! Quietos!!


E a criança cresceu invisível aos olhares daqueles que não veem a vida fora das lojas iluminadas dos shoppings centers.



Menino à janela - Murillo

sábado, 25 de junho de 2011

Respiro


Estava com medo daquele chá com bolachinhas ser o último da vida, numa inversão Proustiana que só eu conseguia sentir. As lágrimas escorriam silenciosas, denunciadas apenas pelo lábio que se sobressaia, por um batom quente e úmido. Era o bico que eu não conseguia tirar do rosto, mania de infância, foi sempre assim. O momento era tão fim que as esparsas lágrimas começaram a se engrossar, num riozinho de tristeza que ia se adensando, rumando pros lábios tortos, num soro de amor e sentimento. Por mais que me sossegasse, aquele segundo representava um fim, um fim não sei do quê. Se pensasse bem tiraria qualquer resposta triste de mim, mas o momento era triste sem pensar e triste fiquei, chorando.

Agora que já não consigo não pensar, a tristeza vem justificada superficialmente por qualquer matemática barata que eu inventei. E a justificativa tem serventia para meu racionalismo treinado que exige respostas sempre que alguma coisa escapa do controle, um chorar na rua qualquer. Ele se engana com a fundamentação inventada e eu não penso nos reais motivos, já que me exigiriam mais choro na rua e mais justificativas baratas. O real motivo é triste. E é tão triste que se torna bonito, feito um samba, feito esses filmes de cinema que você sai sem nem vontade de comer a batatinha com catchup que tanto queria antes de começar a sessão.

Engraçado comparar nossas vidas aos filmes de cinema. Tem sempre aquele que nos revira por dentro e nos faz chorar horas a fio, numa lavagem d'alma. Essa é a melhor justificativa para o homem racionalismo que vive dentro de mim. Finjo que vou ver um filme qualquer, simulo um bocejar preguiçoso e dedilho na prateleira as fitas, como que numa dúvida real. Faz-se um "ah", despreocupado, e o filme, já há muito escolhido, é colocado para o ritual.

Ao acordar em meio as lágrimas justificadas pelo amor realizado, ou pela morte já sabida, passo a pensar na realidade que não tem um fim que se possa prever. Talvez se fosse na cartomante poderia me orientar na vida, ou ler os maços do cigarro, mas já não fizeram isso antes? A vida nos enrola e dá, num repente, um nó, como naquelas finas correntinhas douradas que guardamos com cuidado pra não embaraçar. E de tão fina, se tentamos consertar, ela arrebenta sem conserto, num som desconcertante de fim.

E voltamos a chorar, sem justificativa, ou justificadamente, pela vida.



Quadro: Breach - Vladimir Kush



domingo, 8 de maio de 2011

Despejo III


A vida me lembrou de repente da minha humanidade. Me trouxe a sombra do vale, o escuro da noite. Ainda bem, oras, para que eu possa amanhã enxergar novamente a nuvem clara na qual eu pairava flutuando. E se ficasse assim voando ia ficar tão distante daquilo que é, pensando como plebéia que virou princesa, contos de fadas, foi sim. Mas a vida é toda recorta, é toda picotada e ninguém tem tudo ou o tudo tem ninguém. Tem o que nada tem e tem o que tudo tem. Não tem como fazer média, somar e dividir por dois pra ficar igualzinho assim, ou compensado. É tudo desconcertado mesmo, meio desafinado (o que mais gosto na orquestra é ver os violinos se afinando no começo. A harmonia é tão grande que a música que vem depois só faz sentido se aquele início, aquela concordância dos instrumentos, se faz presente, quase que de maneira silenciosa, discreta. Sem isso, não tem Beethoven que o valha pra ornar com as notas todas. O som harmonia me acalma, pois daí entendo que tudo vai ficar bem... Vai ficar tudo bem e a música vai tocar maravilhosamente como é, numa potência da arte humana que aterroriza diante da mediocridade diária da vida) e repartido. E quando vem o soco da realidade que te traz pra terra, com cara na lama e tudo, mas dessas baratinhas que nem fazem bem pra pele, você vê que o cinco bola não existe, mas um zero bem vermelho. O redondinho é tudo invenção. Não tem meia fome, não tem meio pobre, não tem meia vida. Tem ou não tem. É ou não é. E a gente só percebe quando vai lá atrás e fica três horas e meia esperando, esperando, esperando e... qual o nome do ônibus mesmo? Ou quando a gente vê criança da rua brincando com caco. Menino! E se corta? Corta não, tia, a gente toma cuidado. Dá pra cortar o pão duro pra comer, a pele dura da barriga, sabe como é... E a humanidade nos pega assim, de repente, e nos derruba do cavalo branco, ou do sofá das 16h, depois do café com bolachinhas. A vida estica o dedinho e nos toca, toca afinando o desconcerto que virá, a verdadeira graça que tocará, uma verdadeira (e talvez, medíocre) humanidade.


African Sonata - Vladimir Kush


sábado, 12 de fevereiro de 2011

Elogio à loucura I



Como uma onda, arrasta a sanidade do controle.
Se apodera aos poucos dos gestos e deixa, de longe, uma voz gritar desesperada pela volta daquilo que se perde, como se algo queimasse num fogo purpúreo, dilacerante.
Sabe-se, por certo, que a regeneração é longa. O devastamento tem sua herança confirmada pelas consequências do que se fez.

E queria fazer?
Não, mas fui apoderada.
E não se controlou?

Ora, do que se trata o controle? E quem o tem de fato? Talvez faltassem-me medicamentos periódicos, ou mesmo revistas, talvez, que acalmassem o ânimo retraído, enjaulado metodicamente.

Mas já foi. Há de se consolar com provérbios de leite derramado. Os otimistas, e tento o ser, convencem-se do foi melhor assim, do aprendizado eterno de vida, das melhoras a serem feitas.

E quando tudo se aquieta e o verde volta a crescer....
....O fogo vem e queima a pele em carne viva.

Até que a carne se esvai.
O verde se esvai
O carvão também.

E sobra, soberana, a loucura. Gargalhando, desesperadamente, a nova vitória.
A voz se cessa. Perde-se o tempo. E tudo gira, gira, gira...


Hieronymus Bosch - The Garden of Earthly Delights - Hell


sexta-feira, 31 de dezembro de 2010



Hoje pensei que fosse morrer.
Talvez pelas tantas ligações não atendidas
de diversos números conhecidos
das amigas antigas que telefonam espaçadamente
para me contar as novidades

Hoje pensei que fosse morrer.
Pelo tetraplégico que vi, de terno, no vagão de trem,
que arrumando seus óculos com o pouco de braço que lhe cabia,
olhou seu celular preso ao braço da cadeira de rodas.

Hoje pensei que fosse morrer.
Talvez pela ligação daquele que havia esquecido,
ou por sua singela mensagem,
agradecendo-me por ter lhe mudado a vida.

Hoje pensei que fosse morrer.
No dia do meu primeiro salário,
no último dia do ano,
ora, e poderia ser diferente?

Hoje pensei que fosse morrer.
Pelo medo que me tomou as veias
pelo pânico que me arrepiou a pele
pelo baque que meu levou o suspiro.

Hoje pensei que fosse morrer.
E pensei mesmo sem sentir frio em pleno sol,
ou calor em meio a neve,
pois o clima era ameno e no ameno não senti.

Hoje pensei que fosse morrer.
Hoje pensei que fosse morrer.
E o pavor dominou meu corpo.
E me senti, diante do mundo, sozinha.
E li a manchete que dizia:
"Faleceu, sabendo disso, uma menina"

E que menina o era?
A dos olhos azuis?
A estagiária?
A do ônibus ou metrô?
A do facebook?
A da Mooca?
Uma mulher?

Hoje pensei que fosse morrer
e percebi que em meio a tanta vida,
nos encontramos perdidos.
Talvez nas palavras.
(estas que surgem prontas na rápida escrita do metrô)
Talvez na solidão.

E precisei amar para entender que por fim viveria.


M. C. Escher - Eye


sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Epitáfio nº 30


Libertou-se, enfim, do corpo que lhe pesava.
E sua alma dominou aqueles que lhe rodearam.
Deixou, silencioso, um recado aos pés de ouvido
"vivam a arte do amor"
ou algo assim que nos coubesse.
Mesmo sem palavras, inspirou-me,
tornando muitas, das que me brotam,
sementes dele.
A flor maior, porém, foi a esperança,
confirmada pelos olhares, gestos, abraços,
revelando, firmemente, que nessa terra
estamos todos juntos.


La Danse de Henri Matisse

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010


Estava tão cheia que era como oca. Não tinha espaço para o barulho do chacoalhar. Estava vedada, lotada de sentimentos de duas, três, quatro vidas. Para ela aquilo era viver. Como se a beliscassem a todo instante lembrando que estava lá. Não se deixava cair na inércia do morno, do regulamentado e buscava o que lhe cutucasse para um eterno acordar. E vivia.


Chegou um tempo, porém, que se viu tributável. As décadas passaram sem que percebesse e o sono veio dominar-lhe os pensamentos. Eram 10 da manhã e sabia que aquela perda era de vida. Questionava se era o fim, o início de um ciclo eterno, o abafar de sua cor. Viu-se esvaziar aos poucos. Estava tão oca que era como cheia. Tinha espaço para cinco, seis, sete vidas que analisava friamente com marca-textos e etiquetas, catalogando em blocos coloridos. E seguia.



M. C. Escher - Three Spheres II

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Colagens


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A tão condenável fuga me atrai como luz, o inseto. A sensação de caridade desaparece em frações tão curtas que a luz se tornou estática diante da repulsiva sensação do nada ser diante daquilo que se é.
Amar o próximo. Amo-o quando não me atinge de maneira tão certeira e aguda, como faca em carne fresca. Com o amor-próprio ferido e toda minha (até então discutida) vaidade escorrida pelo buraco escancarado de pouca estima talhado com tanto esmero. A falta de vernáculo não me proporciona suficientes doses de bem-estar, dose esta que, como uma droga, vicia, e após seu fim derruba, com um soco forte e real, as ilusões formadas de um intelecto tão imaturo. Ajoelhada, recolho os cacos daquilo que um dia sonhei ser, e enxergo o reflexo do medo e a podridão de tudo que enunciei e ouvi, do toque doce e do abraço ensinado.
O desprendimento de todo tipo de mérito se faz como inseto em casca velha. Covarde, reapareço e me reergo diante de toda imensidão de aplausos. Não os mereço e sou logo comparada com furtivos olhares de pena.

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Num certo momento o sentido se extingue
como uma nuvem que se esvai...
Desvanece.
Todas as intenções,
ilusórias ou não,
ilustres ou não,
anulam-se em tristeza,
causando um mal-estar,
um enjôo,
por tudo aquilo que não foi
e que foi e que poderia ser.
A inércia assume o poder
e continuamos procurando
um fim.
(21 de Outubro de 2008)

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Odeio esse abafado ar de angústia eterna.
Antes assumir o desagrado com o mundo como o velho safado
que camuflar usando um sorriso civilizatório
(de dentes bem brancos,
cor de nata,
corroídos por ácido
até a invenção de um café fluoretado)
Escondendo, assassinamos aos poucos
a aflição que nos dá vida.
Cabisbaixos seguimos,
e apertamos em guardanapos,
bordas de livro,
papéis amarelados,
palavras despejadas para consolo
daquilo que jamais deveria ser consolado.
(4 de Setembro de 2008)

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E se fragmento-me em instantes, estes não têm volta. Então me perco aos poucos, a cada baque de razão ou irracionalidade que me apresentam um outro lado, uma outra face,
um novo sentimento e mais ilusões,
imaginações
palavra que relativiza até a relatividade.
E ainda não me decidi se acredito na cabeça
(e daí se abrem possibilidades)
ou nos olhos.
Mas sou tão míope
e talvez tão louca
(segundo meu histórico familiar)
que prefiro não acreditar em nada
e sigo assim
vivendo,
morrendo,
sentindo...
...sofrendo.
(31 de Agosto de 2008)

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Paul Klee - Burg und Sonne

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Carta de Buenos Aires 2010



Carta de Buenos Aires, Reunião Internacional da Casa Warat.


Buenos Aires, una noche fría a finales de octubre de 2010.


Carta literária do Encontro Anual da Casa Warat, ocorrido nos findos dias de outubro, do ano de 2010 (dois mil e dez), en “Mi Buenos Aires, tierra florida”. A reunião começou um dia após o Cabaré Macunaíma, realizado nos arredores de Maipú. Na capital argentina, o frio era marcante e o vento deixava ainda mais gélidas as noites ébrias. Na envolvente mistura de calor humano e frio porteño, ainda inebriados pela noite em Cabaré, deu-se início a reunião.

Estában Isabela, con su hermoso pelo rubio, Leilane, con sus belos ojos pintados, Mariana con su pelo rojo claro y sus 19 años, y Jaqueline, con su pelo nero, como los de Paula. Quizás era de ellas que hablava Chico Buarque quando escribió la canción “João e Maria” ("a noiva do caubói era você além das outras três…"). Ah si, estában también los chicos: Levy, con su buen humor y su abrazo colectivo, André, con su barba, sus 20 años y su sensibilidad, Eduardo, con sus rizos pero sin su sombrero porteño, Leopoldo, con el cuidado con los otros que solo él lo tiene, argentino que habla palabras que todos las compreendem. Y claro, estaba nuestro queridíssimo Luis: lleno de energia, de projectos, com sus ideas increíbles, su poder de congregar personas y de instaurar una atmosfera mágica al su rededor. Brindava a todos palavras estéticas y afectivas que, como siempre, nos encantavam y nos nutrían a todos.

O local escolhido: El Gato Viejo. No meio do improvável e do impossível, fez-se um restaurante em delírio na antigua estación de tren, no atelier de Carlos Regazzoni. Levy pede uma garrafa de vinho, quer apresentar a todos “Angelica Zapata”. Alguns preferem refrigerante, como Isa, Leilane e Mariana. Antes de chegarem os pratos, Leopoldo lança a primeira pergunta para instigar a reflexão: ¿qué nos une?

Jaqueline logo pega papel, pedacinhos de uma cartolina amarela, cheirando a tabaco, anteriormente cortados, e distribui para todos que estão na mesa, para que possam escrever suas reflexões. As respostas, que saem de forma fragmentada, complementam-se. Leopoldo lê os bilhetes escritos em espanhol, Jaqueline aqueles em português.

A resposta era polifônica, com argentinos hablando português y brasileños falando em espanhol, mas parecia ressoar uma só voz. O que nos une? La vontad de construir un mondo en donde cada uno es un encontro con los otros. Nos une la búsqueda. Pela realização livre do espírito. Pela intersubjetividade perdida na modernidade. Por uma nova sociedade, mais humana e menos castradora. Por puertas hacia nuevos mundos. Por afinar sensibilidades. Pela despinguinização dos espíritos dos estudantes e por um reconhecimento que não precisa de mitos, teorias, hermenêutica e lei para se realizar. Nos une el deseo de transformar. A crença no poder das alterações moleculares. Nos une la afectividad y la necessidad de construir un mundo diferente.

Nos une a recusa da desumanização e a esperança de mostrar que é possível viver afetivamente com os outros. Nos une a leveza das relações que se constituem como um respeitoso entre-nós. Nos une a inquietação perante o mundo e a tentativa constante para melhorá-lo e nos melhorar como seres humanos sensíveis. Nos une el interactuar entre nosostros para enriquecernos en nuestros espíritos para sermos mejores personas y brindarnos a nuestros semejantes.

Nos une a busca do entendimento de nós mesmos a partir do Outro e a busca do entendimento do Outro a partir de nós mesmos. Tomar o Outro a partir de nós mesmos. O Outro como uma extensão do Eu. A exsurgência do entre. A aurora da sensibilidade. A nascente do sensível. Nos une la tentación de unir/nos en una subjetividad que nos pertenezca para sustener/nos. No nos une el amor sinó el espanto (Borges). Nos une a vontade de um pluri-verso de significações voltadas sempre ao novo, à constante transformação. Nos une a sensibilidade, sabermos que não estamos sós, mas juntos pela construção da vida carnavalizada e repleta de sentimento de amor.

Nos une a tentativa de fazer triunfar a alegria sobre a tristeza, a pulsão de vida em um mundo em que prevalece a pulsão de morte. Nos unimos para compreender e transformar a pedagogia, enquanto momento de descobrir e redescobrir a nós mesmos e o Outro, numa perspectiva criativa, emancipatória, amorosa, erótica e transformadora. Qué nos une es el sentimiento de querer ser no un “yo” o un “otro”, sinó un “entre”. Una relación, un devir.

Pausa. O primeiro prato chegou: peru, já passado por outras mesas e bocas, temperado com cenoura, café e chocolate. Regazzoni cria as receitas de forma espontânea e plástica. Era o prato frio, depois viriam os quentes. Warat elogia o vinho. André descobre que é de uma safra de 1995. Levy e André tiram foto com o vinho, que não é tomado em taças convencionais, mas em pequenos copos de vidro. Tudo era inesperado e surrealista, como tinha de ser. Leopoldo, entonces, hace la segunda pregunta: ¿qué nos molesta?

Nos molesta el poder, el paradigma racionalista, el robo de la sensibilidad. Nos molesta o desejo pelo consumo, o fazer-se no consumo. Os micro-fascismos. A reverência a tradições vazias, a estética da forma burocrática de destruição do eu pelo enquadramento a padrões, hábitos copiados, sonhos pasteurizados, vidas vazias e o hedonismo que não transcende a forma. Nos molesta a insensibilidade, a indiferença. O sentir-se sozinho em lugares cheios. Nos molesta a pressa com que vive, sem se prestar atenção ao que se sente e ao que o outro sente. Nos molesta a repressão do espírito em todas as sua manifestações.

Nos molesta a idéia de degraus invisíveis que nos afastam – pois paramos de nos ver como iguais, como humanos. Nos molestan las divisiones, las separaciones, las etiquetas. Nos molesta la falta del deseo para perseguir una passión que nos mueva el corazón. Nos molesta o uni-verso estático e imutável, o que não tem devir. A tentativa de transformar sentimento em racionalidade, a modernização que transforma humanos em objetos homogeneos e pasteurizados.

Nos molesta uma vida sem poética, sem sonho, sem imaginação, sem criatividade. Nos molesta el egoísmo, la falta de solidariedad. Nos molesta o imperativo da razão, uma razão fria, cartesiana, que nos amputou a sensibilidade, que nos anestesiou a todos.

Segunda pausa. O segundo prato chegou: em forma de pato, vindo direto da cozinha para nossa mesa, sem escala e sem escolha. Depois veio polvo e também javali. Levy acende o charuto. André, o cachimbo. Leilane, o cigarro. Bééééhhh… Em meio à fumaça dos sonhos e à voz inebriante da mulher mais divertida e fogosa do recinto, entovam-se cantos líricos y abrazos colectivos. As luzes apagadas incendiavam delírios cabaréticos. Havia muitas cores, nas esculturas, nas paredes da sala, nos olhares trocados, nos livros espalhados, nas cidades internas.

Un despliegue de sensasiones diarios que se desdoblaran y hablaran con figuras en lenguajes del amor. Eram velas que dançavam um samba infinito, em meio à cidade do tango. Era la sensasión de estar delante un mar totalmente desconocido de colores diversos y que permite percibir una línea en el horizonte, sin que sea possible identificar su inicio y tampoco su fin. Em Buenos Aires encontrou-se esse mar. Um delírio? Sólo para los que no creen en los devenires, para los que se quedan en la racionalidad hermetica, cerrada en si misma. Sólo para aquellos que no perciben que, si no hay un “entre”, entonces están solos y nada són.

Cartografamos sentimentos, devires em meio à noite estrelada. Sensasiones fuertes y lindas, de alteridad y fraternidad. Luces, musica, danza, poesia, abrazos, besos y emoción. Reconheceram-se, desde logo, pelo olhar. Aquilo não tinha fronteiras, a amizade. Nenhuma língua ou sotaque seria capaz de impedir o entendimento, e o sentimento. O encontro puro. Sutil. O “entre” que se formou. O olhar bastava. A vontade bastava. A alegria bastava, assim como o sentimento de vida. Estava vivo. Juntaram-se a nós Inês, Glória, Marta Gama, André Coppeti, Alexandre da Rosa, Albano Pepe. Nem todos fisicamente, mas a nós se uniam pelo sentimento, presença essa que é ainda mais vivaz.

Todos formaban un grán rizoma, em que se diluem as fronteiras entre o virtual e o real. E rapidamente construíram-se idéias de esperança. Não havia censuras e o acolhimento foi completo. Reinava, soberano, o apetite de mudar, de amar, de viver. Não poderia existir construção vazia em meio tão fecundo. Naqueles papeles amarillos despejaram-se desejos comuns, que todos compartilhavam sem saber, mas que podiam intuir, sentir. Verdadeiro encontro. Revolução molecular.

A cidade ainda chovava em luto, mas a alegria reinava absoluta na Casa que construía esperança. A Casa que não tem uma casa. Não tem porque não precisa ser física. Ela é em qualquer lugar, onde se estiver, onde se quiser. En qualquer lugar donde se creea en en poder transformador de la sensibilidad. Nossa casa é movil, é nômade. Ela dança em ritmo de samba. Dança tango, flamenco y mismo la musica gitana. É uma fusão de cores, de sons, paladares e sentidos. É pura sensibilidade e está sempre aberta para quien crea en la revolución de un abrazo. De um beso. Quien así creer, entenderá (sentirá) essa Casa.

A nossa Casa é a anti-casa. O inverso do tijolo racional, do cimento solidificante, do concreto estático, da parede segregadora, do teto hermético, do chão geométrico, da porta com trancas, da janela com grades. A negação da casa cartesiana, morada da Razão, essa insustentável, estúpida e inválida habitação.

A nossa Casa é a Utopia, no sentido literal da palavra: o lugar nenhum. Ao mesmo tempo, é um eterno devir de imaginações poéticas, de possibilidades do que foi, do que nunca é e do que pode vir-a-ser. É a continuidade do eu no outro. Declaramos que o ser-em-si-e-para-si está morto. A Vida se dá no ser-com-outro, no ser-para-outro, no ser-entre. E ela não admite racionalização, solidificação, objetificação e reificação. A Casa é a nossa resposta a um mundo no qual a Vida se tornou utópica. A nossa Casa é às avessas: não somos nós quem nela moramos, mas é ela quem em nós habita.

Substitui-se o tijolo pela sensibilidade, o cimento pelo abraço, o concreto pelo beijo, a parede pela poesia, o teto pelo tato, o chão pela arte, a porta pelo outro e a janela pelo olhar. Constrói-se a casa waratiana, a casa nômade. Y que está abierta a todos los que en ella quiseren entrar.

Carta literária e patafísica, lida e passada numa noite fria, em meio a catacumbas, ao inesperado som de um piano…