terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Náusea



Uma criança nasceu na rua.
Esta suja, mas vive.
Faminta, sorri.

Parem os carros, os caminhões,
desçam dos metrôs, das construções,
uma criança nasceu na rua!

Silenciem a cidade! Ouçam o seu choro!
A criança vive,
sorri, faminta.

Deem-lhe, comida, roupa, casa,
deem-lhe compaixão!
Essa criança nasceu!
Perfurou a barreira da indiferença e veio ao mundo nos saudar.
Parem todos! Quietos!!


E a criança cresceu invisível aos olhares daqueles que não veem a vida fora das lojas iluminadas dos shoppings centers.



Menino à janela - Murillo

sábado, 25 de junho de 2011

Respiro


Estava com medo daquele chá com bolachinhas ser o último da vida, numa inversão Proustiana que só eu conseguia sentir. As lágrimas escorriam silenciosas, denunciadas apenas pelo lábio que se sobressaia, por um batom quente e úmido. Era o bico que eu não conseguia tirar do rosto, mania de infância, foi sempre assim. O momento era tão fim que as esparsas lágrimas começaram a se engrossar, num riozinho de tristeza que ia se adensando, rumando pros lábios tortos, num soro de amor e sentimento. Por mais que me sossegasse, aquele segundo representava um fim, um fim não sei do quê. Se pensasse bem tiraria qualquer resposta triste de mim, mas o momento era triste sem pensar e triste fiquei, chorando.

Agora que já não consigo não pensar, a tristeza vem justificada superficialmente por qualquer matemática barata que eu inventei. E a justificativa tem serventia para meu racionalismo treinado que exige respostas sempre que alguma coisa escapa do controle, um chorar na rua qualquer. Ele se engana com a fundamentação inventada e eu não penso nos reais motivos, já que me exigiriam mais choro na rua e mais justificativas baratas. O real motivo é triste. E é tão triste que se torna bonito, feito um samba, feito esses filmes de cinema que você sai sem nem vontade de comer a batatinha com catchup que tanto queria antes de começar a sessão.

Engraçado comparar nossas vidas aos filmes de cinema. Tem sempre aquele que nos revira por dentro e nos faz chorar horas a fio, numa lavagem d'alma. Essa é a melhor justificativa para o homem racionalismo que vive dentro de mim. Finjo que vou ver um filme qualquer, simulo um bocejar preguiçoso e dedilho na prateleira as fitas, como que numa dúvida real. Faz-se um "ah", despreocupado, e o filme, já há muito escolhido, é colocado para o ritual.

Ao acordar em meio as lágrimas justificadas pelo amor realizado, ou pela morte já sabida, passo a pensar na realidade que não tem um fim que se possa prever. Talvez se fosse na cartomante poderia me orientar na vida, ou ler os maços do cigarro, mas já não fizeram isso antes? A vida nos enrola e dá, num repente, um nó, como naquelas finas correntinhas douradas que guardamos com cuidado pra não embaraçar. E de tão fina, se tentamos consertar, ela arrebenta sem conserto, num som desconcertante de fim.

E voltamos a chorar, sem justificativa, ou justificadamente, pela vida.



Quadro: Breach - Vladimir Kush



domingo, 8 de maio de 2011

Despejo III


A vida me lembrou de repente da minha humanidade. Me trouxe a sombra do vale, o escuro da noite. Ainda bem, oras, para que eu possa amanhã enxergar novamente a nuvem clara na qual eu pairava flutuando. E se ficasse assim voando ia ficar tão distante daquilo que é, pensando como plebéia que virou princesa, contos de fadas, foi sim. Mas a vida é toda recorta, é toda picotada e ninguém tem tudo ou o tudo tem ninguém. Tem o que nada tem e tem o que tudo tem. Não tem como fazer média, somar e dividir por dois pra ficar igualzinho assim, ou compensado. É tudo desconcertado mesmo, meio desafinado (o que mais gosto na orquestra é ver os violinos se afinando no começo. A harmonia é tão grande que a música que vem depois só faz sentido se aquele início, aquela concordância dos instrumentos, se faz presente, quase que de maneira silenciosa, discreta. Sem isso, não tem Beethoven que o valha pra ornar com as notas todas. O som harmonia me acalma, pois daí entendo que tudo vai ficar bem... Vai ficar tudo bem e a música vai tocar maravilhosamente como é, numa potência da arte humana que aterroriza diante da mediocridade diária da vida) e repartido. E quando vem o soco da realidade que te traz pra terra, com cara na lama e tudo, mas dessas baratinhas que nem fazem bem pra pele, você vê que o cinco bola não existe, mas um zero bem vermelho. O redondinho é tudo invenção. Não tem meia fome, não tem meio pobre, não tem meia vida. Tem ou não tem. É ou não é. E a gente só percebe quando vai lá atrás e fica três horas e meia esperando, esperando, esperando e... qual o nome do ônibus mesmo? Ou quando a gente vê criança da rua brincando com caco. Menino! E se corta? Corta não, tia, a gente toma cuidado. Dá pra cortar o pão duro pra comer, a pele dura da barriga, sabe como é... E a humanidade nos pega assim, de repente, e nos derruba do cavalo branco, ou do sofá das 16h, depois do café com bolachinhas. A vida estica o dedinho e nos toca, toca afinando o desconcerto que virá, a verdadeira graça que tocará, uma verdadeira (e talvez, medíocre) humanidade.


African Sonata - Vladimir Kush


sábado, 12 de fevereiro de 2011

Elogio à loucura I



Como uma onda, arrasta a sanidade do controle.
Se apodera aos poucos dos gestos e deixa, de longe, uma voz gritar desesperada pela volta daquilo que se perde, como se algo queimasse num fogo purpúreo, dilacerante.
Sabe-se, por certo, que a regeneração é longa. O devastamento tem sua herança confirmada pelas consequências do que se fez.

E queria fazer?
Não, mas fui apoderada.
E não se controlou?

Ora, do que se trata o controle? E quem o tem de fato? Talvez faltassem-me medicamentos periódicos, ou mesmo revistas, talvez, que acalmassem o ânimo retraído, enjaulado metodicamente.

Mas já foi. Há de se consolar com provérbios de leite derramado. Os otimistas, e tento o ser, convencem-se do foi melhor assim, do aprendizado eterno de vida, das melhoras a serem feitas.

E quando tudo se aquieta e o verde volta a crescer....
....O fogo vem e queima a pele em carne viva.

Até que a carne se esvai.
O verde se esvai
O carvão também.

E sobra, soberana, a loucura. Gargalhando, desesperadamente, a nova vitória.
A voz se cessa. Perde-se o tempo. E tudo gira, gira, gira...


Hieronymus Bosch - The Garden of Earthly Delights - Hell


sexta-feira, 31 de dezembro de 2010



Hoje pensei que fosse morrer.
Talvez pelas tantas ligações não atendidas
de diversos números conhecidos
das amigas antigas que telefonam espaçadamente
para me contar as novidades

Hoje pensei que fosse morrer.
Pelo tetraplégico que vi, de terno, no vagão de trem,
que arrumando seus óculos com o pouco de braço que lhe cabia,
olhou seu celular preso ao braço da cadeira de rodas.

Hoje pensei que fosse morrer.
Talvez pela ligação daquele que havia esquecido,
ou por sua singela mensagem,
agradecendo-me por ter lhe mudado a vida.

Hoje pensei que fosse morrer.
No dia do meu primeiro salário,
no último dia do ano,
ora, e poderia ser diferente?

Hoje pensei que fosse morrer.
Pelo medo que me tomou as veias
pelo pânico que me arrepiou a pele
pelo baque que meu levou o suspiro.

Hoje pensei que fosse morrer.
E pensei mesmo sem sentir frio em pleno sol,
ou calor em meio a neve,
pois o clima era ameno e no ameno não senti.

Hoje pensei que fosse morrer.
Hoje pensei que fosse morrer.
E o pavor dominou meu corpo.
E me senti, diante do mundo, sozinha.
E li a manchete que dizia:
"Faleceu, sabendo disso, uma menina"

E que menina o era?
A dos olhos azuis?
A estagiária?
A do ônibus ou metrô?
A do facebook?
A da Mooca?
Uma mulher?

Hoje pensei que fosse morrer
e percebi que em meio a tanta vida,
nos encontramos perdidos.
Talvez nas palavras.
(estas que surgem prontas na rápida escrita do metrô)
Talvez na solidão.

E precisei amar para entender que por fim viveria.


M. C. Escher - Eye


sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Epitáfio nº 30


Libertou-se, enfim, do corpo que lhe pesava.
E sua alma dominou aqueles que lhe rodearam.
Deixou, silencioso, um recado aos pés de ouvido
"vivam a arte do amor"
ou algo assim que nos coubesse.
Mesmo sem palavras, inspirou-me,
tornando muitas, das que me brotam,
sementes dele.
A flor maior, porém, foi a esperança,
confirmada pelos olhares, gestos, abraços,
revelando, firmemente, que nessa terra
estamos todos juntos.


La Danse de Henri Matisse

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010


Estava tão cheia que era como oca. Não tinha espaço para o barulho do chacoalhar. Estava vedada, lotada de sentimentos de duas, três, quatro vidas. Para ela aquilo era viver. Como se a beliscassem a todo instante lembrando que estava lá. Não se deixava cair na inércia do morno, do regulamentado e buscava o que lhe cutucasse para um eterno acordar. E vivia.


Chegou um tempo, porém, que se viu tributável. As décadas passaram sem que percebesse e o sono veio dominar-lhe os pensamentos. Eram 10 da manhã e sabia que aquela perda era de vida. Questionava se era o fim, o início de um ciclo eterno, o abafar de sua cor. Viu-se esvaziar aos poucos. Estava tão oca que era como cheia. Tinha espaço para cinco, seis, sete vidas que analisava friamente com marca-textos e etiquetas, catalogando em blocos coloridos. E seguia.



M. C. Escher - Three Spheres II